A infertilidade é uma realidade enfrentada por muitos casais que desejam ter filhos. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 15% dos casais enfrentam dificuldade para engravidar.
Ao contrário do que ainda persiste no imaginário social, a infertilidade não está relacionada apenas ao aparelho reprodutor feminino, fatores ligados ao sistema reprodutor masculino são responsáveis por até 40% dos casos.
Entre as diversas causas possíveis, uma das menos conhecidas e comentadas é a infertilidade masculina de origem imunológica, que ocorre quando o próprio sistema de defesa do organismo passa a reagir contra os espermatozoides.
Esse fenômeno está relacionado à presença dos chamados anticorpos espermáticos, proteínas produzidas pelo sistema imunológico que reconhecem os espermatozoides como se fossem agentes invasores.
Quando isso acontece, a função dessas células pode ser comprometida, reduzindo as chances de fecundação natural.
O que são anticorpos espermáticos?
Os anticorpos são proteínas produzidas pelo sistema imunológico para proteger o organismo. Eles atuam identificando e combatendo vírus, bactérias e outras substâncias consideradas estranhas ao corpo.
Em condições normais, esse mecanismo é essencial para manter a saúde e evitar infecções.
No entanto, em algumas situações, o sistema imunológico pode reagir de maneira equivocada e passar a atacar estruturas do próprio organismo. É nesse contexto que surgem os anticorpos espermáticos.
Esses anticorpos se ligam à superfície dos espermatozoides e podem interferir em diferentes etapas do processo reprodutivo. Dependendo da quantidade e do local onde se fixam, eles podem prejudicar a mobilidade das células, dificultar sua progressão no trato reprodutivo feminino ou impedir a fecundação do óvulo.
Em alguns casos, os anticorpos fazem com que os espermatozoides se aglutinem, ou seja, se agrupem uns aos outros, reduzindo sua capacidade de deslocamento. Em outros, podem afetar diretamente mecanismos essenciais para que ocorra a fertilização.
Como o sistema imunológico pode afetar a fertilidade masculina?
Os espermatozoides são produzidos nos testículos, dentro dos túbulos seminíferos. Durante esse processo, existe uma proteção natural chamada barreira hematotesticular.
Essa barreira impede o contato entre o sistema imunológico e os espermatozoides. Isso é necessário porque essas células possuem características diferentes das demais células do organismo, já que carregam metade do material genético necessário para formar um novo indivíduo.
Segundo o Dr. Fabio Vilela, do IVI Salvador, quando essa proteção sofre alterações, o sistema imunológico pode reagir de forma inadequada. “Quando essa barreira é rompida ou sofre algum tipo de alteração, o organismo passa a reconhecer os espermatozoides como ameaças. A partir daí, inicia-se a produção de anticorpos que interferem diretamente na função reprodutiva”, explica.
Dependendo da intensidade da reação imunológica, os anticorpos podem reduzir a mobilidade dos espermatozoides, impedir sua progressão pelo sistema reprodutivo feminino, dificultar a interação com o óvulo e até prejudicar a penetração na camada externa do óvulo. Mesmo com espermograma aparentemente normal, a fertilidade pode estar comprometida.
Principais causas imunológicas da infertilidade
Existem diferentes situações que podem favorecer a formação de anticorpos espermáticos.
Infecções no sistema reprodutor masculino podem provocar inflamações capazes de alterar a barreira de proteção dos testículos. Traumas testiculares também podem expor os espermatozoides ao sistema imunológico.
Outro fator que pode estar associado ao problema são as cirurgias urológicas, que, em alguns casos, provocam alterações temporárias ou permanentes nos mecanismos naturais de proteção das células reprodutivas.
A vasectomia e a reversão do procedimento também estão entre os fatores que podem estar associados à produção de anticorpos espermáticos.
“Após a vasectomia, o organismo pode desenvolver uma resposta imunológica contra os espermatozoides. Mesmo após a reversão, esses anticorpos podem permanecer e interferir na fertilidade”, afirma o especialista do IVI Salvador.
Além disso, condições como a varicocele, dilatação das veias testiculares, e inflamações crônicas podem contribuir para alterações imunológicas. A presença desses fatores não significa necessariamente infertilidade, mas aumenta o risco de impacto na fertilidade masculina.
Como é feito o diagnóstico?
A investigação costuma começar pelo espermograma, exame que avalia quantidade, mobilidade, morfologia e concentração dos espermatozoides.
Quando há a suspeita de causa imunológica, exames específicos podem ser solicitados. Entre eles estão o Teste MAR, que identifica anticorpos aderidos aos espermatozoides, e o Immunobead Test, que avalia em qual região da célula esses anticorpos estão presentes, ajudando a compreender melhor o impacto na fertilidade.
Esses exames identificam se o sistema imunológico está interferindo na fertilidade masculina e ajudam para a definição da melhor estratégia terapêutica, muitas vezes dentro da Reprodução Assistida.
Casais que tentam engravidar por um período prolongado sem sucesso devem procurar avaliação médica após 12 meses de tentativas, ou após 6 meses quando a mulher tem mais de 35 anos.
“Existem diversas alterações espermáticas, e cada uma precisa ser analisada com rigor. A investigação precoce aumenta as chances de sucesso do tratamento”, ressalta Dr. Fabio.
Tratamentos e reprodução assistida
O tratamento da infertilidade masculina imunológica depende da quantidade de anticorpos e da avaliação do casal.
Em alguns casos, podem ser utilizados medicamentos para controle inflamatório ou modulação da resposta imunológica. Técnicas de preparo seminal também podem ser realizadas em laboratórios de reprodução assistida para selecionar espermatozoides com melhor potencial de fertilização.
A inseminação intrauterina pode ser indicada em situações leves, pois reduz parte das barreiras naturais do trajeto reprodutivo.
Quando os anticorpos interferem de forma mais significativa, a Fertilização in Vitro (FIV) passa a ser a principal alternativa. Nesse procedimento, os óvulos são coletados e fertilizados em laboratório, permitindo maior controle do processo.
Em muitos casos, utiliza-se a técnica de ICSI. Nela, um espermatozoide é inserido diretamente no óvulo. A técnica reduz o impacto das alterações causadas pelos anticorpos espermáticos e aumenta as chances de gravidez.
Infertilidade masculina ainda é tabu
Apesar dos avanços da medicina reprodutiva, a infertilidade masculina ainda é cercada por estigmas.
Muitos homens associam fertilidade à masculinidade ou desempenho sexual, o que pode atrasar a busca por diagnóstico. “Há uma confusão entre masculinidade, infertilidade e insegurança pessoal. Isso dificulta o tratamento e adia o início de terapias que são eficazes”, conclui o especialista do IVI Salvador.
Falar sobre fertilidade masculina é também falar sobre saúde. O diagnóstico correto e o acesso à Reprodução Assistida permitem que muitos casais realizem o desejo de ter filhos.
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