Problemas de fertilidade em homens e mulheres, às vezes, têm origem em doenças autoimunes e distúrbios do sistema imunológico. O diagnóstico é complexo. Aproximadamente 20% dos casos de infertilidade não explicada são atribuídos a fatores imunológicos.
Esses distúrbios podem afetar a fertilidade de diversas maneiras, incluindo a destruição de células reprodutivas, a dificuldade de implantação do embrião ou o surgimento de abortos espontâneos frequentes.
“Causas imunológicas podem ser um dos motivos para problemas de fertilidade inexplicáveis, já que o sistema imunológico identifica o embrião como um invasor. No entanto, a boa notícia é que, com o diagnóstico e o tratamento adequados, as chances de conceber um bebê saudável aumentam consideravelmente”, comenta o Dr. Fábio Vilela, do IVI Salvador.
Sistema imunológico e doenças autoimunes
O sistema imunológico protege o corpo de agentes infecciosos como bactérias, vírus e outros agentes que podem causar doenças no ser humano. Entre as diversas células imunológicas, os glóbulos brancos (leucócitos) ou linfócitos reconhecem substâncias estranhas e produzem anticorpos ao compreenderem sua estrutura.
Infelizmente, nosso sistema imune não é perfeito. Às vezes, ele não consegue distinguir o que é próprio do nosso corpo e o que é agente externo. Nessas ocasiões, as células de defesa podem atacar outras do nosso próprio corpo, e essa anormalidade causa as chamadas doenças autoimunes.
Um sistema imunológico disfuncional interfere em muitos processos e pode causar infertilidade imunológica. O corpo da mulher pode produzir anticorpos que se fixam aos óvulos ou impedem a fertilização, combatendo os espermatozoides.
Por outro lado, o homem pode produzir anticorpos que destroem o material genético, causando infertilidade imunológica.
A gestação e o sistema imunológico
Como o sistema imunológico do embrião é diferente do da mulher grávida, já que o organismo do embrião também possui os genes do pai, as células de defesa da mulher podem não o reconhecer.
A princípio, para a gestação ocorrer de forma normal, o sistema imune da mulher desenvolve um mecanismo de tolerância imune com a finalidade de não atacar o embrião. Na verdade, é o próprio embrião que avisa a mãe.
Como resultado, ocorre a expressão de um antígeno chamado HLA-G, com o intuito de “apagar” células do sistema imune para o embrião continuar crescendo no útero.
Tipos comuns de infertilidade imunológica
Um problema comum de fertilidade relacionada ao sistema imunológico em homens é o de Anticorpos Antiespermatozoides (ASA). Nesse caso, uma proteína que se liga aos espermatozoides, afeta sua motilidade e a fertilização no óvulo. Quando se ligam aos espermatozoides, o sistema imunológico os reconhece como corpos estranhos e os ataca para destruí-los.
Esse tipo de anticorpo pode ser produzido tanto em mulheres quanto em homens. Nos homens, ocorre uma ruptura da barreira hemato-testicular devido a torção testicular, varicocele ou infecção seminal. Esses anticorpos aparecem no sêmen e no sangue.
Já nas mulheres, doenças como endometriose, ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) ou cervicite, podem ser os agentes causadores. Esses anticorpos, presentes no muco cervical, impedem que os espermatozoides cheguem ao útero.
A trombofilia é um distúrbio autoimune que leva o corpo a desenvolver coágulos sanguíneos anormais nos vasos. Pode ocorrer por causa da ausência de anticoagulantes naturais, mas também por causa da presença de mutações no sistema anticoagulante. Existem vários tipos de trombofilias que são consideradas causas de infertilidade imunológica, como por exemplo a deficiência de proteína C, a deficiência de antitrombina e o fator V de Leiden.
Outro tipo comum de infertilidade imunológica ocorre através dos anticorpos antifosfolípides. Eles podem estar no sangue materno, e levam a um estado de hipercoagulabilidade. Isso leva a formação de trombos na placenta, que atrapalham a nutrição do feto e levam ao aborto. Esse tipo de infertilidade imunológica pode ser a causa de cerca de 15% dos casos de abortos recorrentes.
Há ainda a disfunção de Implantação Aloimune. Nesse tipo de infertilidade imunológica, o sistema de defesa da mulher reconhece o embrião como um invasor. Como resultado, o organismo materno cria anticorpos contra o tecido que expressa proteínas que vieram do material genético do pai. Assim sendo, a implantação do embrião não ocorre, ou quando ocorre comumente resulta em aborto.
Exames para diagnosticar a infertilidade imunológica
O teste genético para hipercoagulabilidade congênita determina a presença de trombofilia hereditária e verifica a predisposição genética à formação de coágulos sanguíneos, uma causa comum de infertilidade imunológica.
Já o teste de imunofenótipo a partir do sangue determina a proporção e o número de linfócitos. O teste de Determinação da variante MTHFR localiza mutações no gene MTHFR que causam hipercoagulabilidade e mau funcionamento do metabolismo do ácido fólico.
O teste APA, específico para homens, visa determinar o polimorfismo, que aumenta o risco de aborto espontâneo. O PCR MET verifica a presença de um gene que causa hipercoagulabilidade. O Allo MLR checa a presença de anticorpos Allo MLR, que tratam o embrião como um corpo estranho. O teste de microcitotoxicidade verifica a presença de anticorpos no sangue da mulher, que combatem os linfócitos do seu parceiro.
Além desses, existe ainda a análise de anticorpos, que detecta a síndrome antifosfolipídica, que causa infertilidade imunológica e abortos espontâneos. O HLA-C que analisa o tecido HLA-C em busca de antígenos e determina se um embrião representa um perigo potencial no útero. O ANA 1,2,3 para verificar a presença de anticorpos e a presença de doenças autoimunes.
O exame da homocisteína, que checa a presença de doenças trombóticas também é utilizado. A Inibina B que mede concentração dessa proteína, que auxilia no diagnóstico de infertilidade imunológica. E o cariótipo, exame genético para verificar o tamanho, a estrutura e o número dos cromossomos. Anormalidades nesse cariótipo podem afetar o sistema imunológico e causar infertilidade imunológica.
Reprodução assistida e infertilidade imunológica
A reprodução assistida pode ser necessária na maioria dos casos de infertilidade imunológica mencionados acima. Dependendo da gravidade e da localização dos anticorpos antiespermatozoides, um dos tratamentos abaixo pode ser o recomendado.
Na inseminação intrauterina, o espermatozoide é inserido diretamente no útero, de forma que não entre em contato com os anticorpos e as células imunológicas não o ataquem.
Se os anticorpos antiespermatozoides forem numerosos ou disseminados por todo o sistema reprodutivo da mulher, a fertilização in vitro (FIV) é uma opção. Nesse tratamento, o espermatozoide é injetado no óvulo em laboratório.
Pessoas com distúrbios do sistema imunológico, como trombofilias, podem precisar de tratamento de fertilidade para engravidar. Se não houver problemas de fertilidade, as mulheres podem engravidar e dar à luz usando medicamentos anticoagulantes.
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