Quando o assunto é o desejo de ser pai ou mãe, as dúvidas e ansiedades são muitas. Saúde, estilo de vida e fertilidade é uma relação que desperta muitas curiosidades.
A interação entre as escolhas e o bem-estar reprodutivo tem recebido cada vez mais atenção. Não só em temas como prática de atividade física e bons hábitos, mas, também, com a alimentação – ou o jejum.
Muitos se perguntam se o jejum pode influenciar na fertilidade e na saúde reprodutiva em geral. E se ele for realizado de forma intermitente e coordenada? É uma curiosidade natural e válida, já que diversas práticas culturais e de saúde incorporam o jejum em seu dia a dia.
O tema ainda é objeto de pesquisa. Estudos em andamento apresentam teorias tanto positivas, quanto negativas.
O que é o jejum intermitente
O jejum intermitente não é uma dieta, mas sim um padrão alimentar que alterna períodos de alimentação com períodos de abstenção. São quatro as formas de jejum intermitente geralmente utilizadas. A primeira e mais usual é a de 12 horas, na qual a pessoa passa esse período sem ingerir alimentos. Um exemplo é parar de comer às 20h e voltar às 8h do dia seguinte.
A segunda, de 16 horas, funciona da mesma forma: 16 horas sem alimentação, com refeições nas 8 horas restantes do dia. A terceira, de 18 horas, segue protocolo similar. Por fim, a mais prolongada, o jejum de 24 horas, feito duas vezes por semana, prevê somente uma refeição ao dia, ficando a próxima para o dia seguinte, no mesmo horário.
Durante o jejum, ocorrem mudanças metabólicas e hormonais que afetam a forma como o corpo usa a energia e regula funções vitais. Um padrão alimentar em que você restringe a ingestão de calorias jejuando por um período determinado e, em seguida, fica livre para se alimentar em outro período.
Quais os efeitos do jejum para o corpo
O jejum intermitente reduz os níveis de insulina, ajudando a melhorar a sensibilidade das células a esse hormônio. Isso significa que o corpo passa a utilizar a glicose de forma mais eficiente, reduzindo o risco de resistência à insulina e diabetes tipo 2. Estudos mostram que o jejum pode reduzir os níveis de insulina entre 30% e 50%, facilitando a queima de gordura e o controle glicêmico.
A prática pode elevar, entretanto, os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Isso ocorre porque o corpo entra em um leve estado de “alerta”, liberando mais cortisol para manter a energia disponível. Em algumas pessoas, isso pode ser benéfico, ajudando na queima de gordura. Para outras, especialmente aquelas com altos níveis de estresse ou problemas de ansiedade, o jejum pode piorar sintomas como irritabilidade, fadiga e insônia.
O jejum intermitente também estimula a produção do hormônio do crescimento (GH), essencial para a reparação muscular, a queima de gordura e o rejuvenescimento celular. Estudos indicam que o GH pode aumentar até 5 vezes durante o jejum, promovendo benefícios metabólicos e ajudando na composição corporal.
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) afeta 1 em cada 10 mulheres e é uma das principais causas de infertilidade. O jejum — especialmente a alimentação com restrição de tempo — pode ajudar a reduzir a resistência à insulina, um fator chave que contribui para os sintomas da SOP. No entanto, o jejum deve ser personalizado, pois a restrição excessiva pode agravar os desequilíbrios hormonais.
O jejum repentino ou prolongado pode diminuir a função tireoidiana, especialmente em indivíduos predispostos ao hipotireoidismo, levando a ciclos menstruais irregulares. A glândula tireoide regula o metabolismo e influencia diretamente a ovulação e a menstruação. É essencial consultar um especialista antes de iniciar qualquer dieta restritiva se você tiver problemas de tireoide conhecidos ou suspeitos.
Os efeitos do jejum para a fertilidade em homens
A testosterona é essencial para a manutenção da massa muscular e da libido. O jejum intermitente pode aumentar a produção desse hormônio, especialmente em homens com sobrepeso. No entanto, jejuns prolongados demais ou muito frequentes podem ter o efeito contrário, reduzindo a testosterona e impactando negativamente a performance física, na energia e na fertilidade.
O jejum prolongado pode reduzir temporariamente a qualidade do sêmen, especialmente se combinado com esforço físico intenso. No entanto, o jejum intermitente moderado pode melhorar a saúde metabólica, reduzir a inflamação e regular a insulina, fatores que, com o tempo, podem contribuir para uma melhor saúde dos espermatozoides.
Uma revisão de 2020 publicada na revista Andrology descobriu que intervenções no estilo de vida, incluindo o jejum intermitente, ajudaram a melhorar a motilidade e a concentração dos espermatozoides em homens com sobrepeso.
Os efeitos do jejum para a fertilidade em mulheres
No caso das mulheres, estudos demonstraram que o jejum prolongado ou a restrição calórica significativa podem afetar o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, levando potencialmente a ciclos menstruais irregulares ou ausentes (amenorreia). Isso, por sua vez, afeta a ovulação e reduz as chances de concepção.
As mulheres podem sofrer com alterações no ciclo menstrual; maior sensibilidade ao estresse e ansiedade devido ao aumento do cortisol e redução da leptina, dificultando a regulação da fome e do peso. Outro ponto é a queda na produção de estrogênio, afetando a fertilidade e o humor.
O jejum, especialmente quando praticado de forma intensiva ou por períodos prolongados, pode afetar hormônios como: GnRH (Hormônio Liberador de Gonadotrofina); LH e FSH (Hormônio Luteinizante e Hormônio Folículo-Estimulante); e o estrogênio e a progesterona.
Efeitos adversos que o jejum exerce sobre a fertilidade
A fertilidade é um processo complexo, que exige um delicado equilíbrio de muitos sistemas em todo o corpo, incluindo o cérebro (hipotálamo, hipófise) e os hormônios ovarianos. Se o seu hipotálamo acreditar que o corpo está sob estresse físico ou mental, ele atrasará a ovulação até que o estresse passe. Ele é incapaz de determinar se o estresse é real (devido à seca e à fome) ou autoinfligido (como a restrição calórica durante o jejum intermitente).
No caso das mulheres, o jejum tende a ser mais prejudicial para a fertilidade, pois a sensibilidade às reações desencadeadas pela prática é maior.
No caso dos homens, o jejum intermitente pode ajudar na redução de gordura e aumento de testosterona, que podem significar uma melhoria para a fertilidade.
Alguns pontos precisam ser avaliados. É fundamental considerar o quão equilibradas e completas (do ponto de vista nutricional) são as refeições consumidas para quebrar o jejum.
Hidratação, ingestão adequada de proteínas e gorduras, e o consumo de alimentos ricos em uma variedade de minerais e vitaminas são essenciais para garantir que seu corpo receba reservas suficientes para o funcionamento hormonal durante as etapas de ingestão de alimentação.
“Como a gente sempre reforça no consultório, além de todas as pesquisas e estudos, precisamos entender que cada corpo se comporta de uma maneira individual. Não é necessariamente porque aumenta a testosterona, que vai ser uma prática positiva para todos os homens. E não significa que será negativo para todas as mulheres. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, e associado a outras práticas e avaliações com equipe multidisciplinar”, explica a Dra. Isa Rocha, do IVI Salvador.
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