A gestação costuma ser vivida como um período de expectativas, planos e transformações. Para algumas mulheres, no entanto, essa experiência é interrompida mais de uma vez, transformando o que deveria ser um momento de alegria em um ciclo de frustração e incerteza.
Embora ainda envolva silêncio e pouca discussão pública, essa é uma situação relativamente frequente, conhecida como aborto de repetição.
O aborto de repetição é caracterizado por duas ou mais perdas gestacionais consecutivas, até a 20ª – 22ª semana de gravidez, e em muitos casos, possui causas identificáveis e tratáveis, exigindo investigação cuidadosa, já que pode estar associado a diferentes fatores biológicos, hormonais e até emocionais.
Principais causas do aborto de repetição
Entre os fatores mais comuns nos abortos de repetição estão as alterações genéticas. Nesses casos, o problema geralmente está relacionado a alterações cromossômicas do embrião, que impedem o desenvolvimento adequado da gestação.
Muitas dessas alterações ocorrem de forma espontânea durante a divisão celular, especialmente com o avanço da idade da mulher, sendo mais frequentes em óvulos de mulheres acima dos 35 anos e ainda mais evidentes após os 40.
Essas alterações também podem estar associadas a rearranjos cromossômicos herdados dos pais.
Segundo a médica do IVI Salvador, Dra. Andreia Garcia, existem situações em que o casal é saudável, sem qualquer sintoma aparente, mas um dos parceiros carrega uma alteração genética que aumenta a chance de embriões inviáveis.
“Quando isso acontece, o organismo interrompe a gestação de forma natural, muitas vezes nas primeiras semanas, antes mesmo da gravidez evoluir”, destaca.
Estudos mais recentes também apontam que os espermatozoides sofrem alterações com o envelhecimento masculino, especialmente a partir dos 45 anos, o que pode influenciar a qualidade embrionária e aumentar o risco de perdas gestacionais recorrentes.
Outra causa importante está relacionada às alterações anatômicas do útero. O formato e a estrutura uterina desempenham papel essencial na implantação do embrião e na manutenção da gestação.
Algumas mulheres apresentam malformações congênitas, como septos uterinos ou útero bicorno, que reduzem o espaço disponível para o desenvolvimento fetal ou comprometem a vascularização necessária.
Outras causas do aborto de repetição
Condições adquiridas ao longo da vida, como miomas, pólipos ou aderências uterinas, podem interferir diretamente na fixação do embrião. Nessas situações, a gravidez até pode ocorrer, mas o ambiente uterino não oferece as condições ideais para sua continuidade, aumentando o risco de perda gestacional.
O equilíbrio hormonal é outro elemento decisivo nesse processo. Alterações endócrinas podem comprometer desde a ovulação até a manutenção da gestação nas primeiras semanas.
Doenças como Hipotireoidismo e Síndrome dos Ovários Policísticos estão frequentemente associadas ao aborto de repetição, especialmente quando não diagnosticadas ou controladas adequadamente.
A deficiência de progesterona, hormônio responsável por preparar o útero para receber o embrião, também pode dificultar a continuidade da gravidez. Nessas circunstâncias, o organismo não consegue sustentar o desenvolvimento inicial, levando à perda precoce.
Quando identificadas, essas alterações costumam responder bem ao tratamento, reduzindo significativamente o risco de novas perdas.
Outro grupo de causas envolve alterações na coagulação sanguínea, conhecidas como trombofilias. Essas condições aumentam a tendência à formação de pequenos coágulos, que podem comprometer a circulação sanguínea da placenta.
Quando isso ocorre, o embrião deixa de receber oxigênio e nutrientes de forma adequada, o que pode resultar na interrupção da gestação.
Fatores imunológicos
Durante a gravidez, o organismo materno precisa tolerar a presença do embrião, que carrega material genético do pai. Em alguns casos, essa adaptação não ocorre adequadamente, e o sistema imunológico passa a reagir contra a gestação.
Essa resposta pode dificultar a implantação ou interromper o desenvolvimento embrionário. Embora ainda existam debates científicos sobre alguns mecanismos imunológicos, já se sabe que doenças autoimunes e a presença de determinados anticorpos podem estar associadas a perdas repetidas.
Infecções também podem contribuir para o aborto recorrente, embora sejam menos frequentes como causa isolada. Algumas infecções virais, bacterianas ou parasitárias podem alterar o ambiente uterino ou afetar diretamente o desenvolvimento embrionário.
Em muitos casos, essas infecções são silenciosas, sem sintomas evidentes, o que torna a investigação ainda mais importante. O diagnóstico precoce permite tratamento adequado e reduz riscos em futuras gestações.
O estilo de vida, embora raramente seja a causa única, pode atuar como fator agravante. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, estresse intenso e exposição a substâncias tóxicas estão associados a maior risco de complicações gestacionais.
O que fazer quando não há causa identificada
Apesar de toda a investigação disponível, há situações em que nenhuma causa é identificada. Esse cenário, conhecido como aborto de repetição inexplicado, pode aumentar a ansiedade do casal, mas não significa ausência de possibilidades.
Muitos casos evoluem para uma gestação bem-sucedida mesmo sem intervenção específica, especialmente com acompanhamento especializado e monitoramento.
Se as perdas gestacionais persistirem, apesar do tratamento clínico, a causa genética passa a ser considerada um dos principais fatores de risco. Nesse contexto, a Fertilização in Vitro (FIV) surge como uma alternativa importante.
A técnica permite a fecundação do óvulo em laboratório e, posteriormente, a transferência do embrião para o útero, possibilitando também, em determinadas situações, a realização de testes genéticos antes da implantação, com o objetivo de selecionar embriões com maior potencial de desenvolvimento.
Impacto emocional e caminhos possíveis
O impacto emocional do aborto de repetição é profundo e, muitas vezes, invisível. A cada nova perda, acumulam-se expectativas frustradas, medos e inseguranças.
Algumas mulheres relatam dificuldade em criar vínculo com uma nova gestação, enquanto outras vivenciam ansiedade intensa durante todo o período. O luto, nesses casos, tende a ser silencioso, já que muitas perdas ocorrem no início da gravidez, antes mesmo do anúncio público.
Por isso, o acompanhamento psicológico é recomendado, ajudando a elaborar as experiências e fortalecer o suporte emocional.
Apesar das dificuldades, é importante destacar que muitas mulheres conseguem levar uma gestação saudável após investigação e tratamento adequados. O avanço da medicina reprodutiva tem ampliado as possibilidades, permitindo diagnósticos mais precisos e intervenções cada vez mais eficazes.
“Mais do que identificar causas, o processo envolve acolhimento, informação e acompanhamento contínuo. Falar sobre aborto de repetição é também romper o silêncio que envolve o tema e ampliar o acesso ao cuidado. Cada história é única, mas a informação e o suporte adequado podem transformar um percurso marcado por perdas em um caminho possível”, conclui Dra. Andreia.
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