A endometriose é uma doença silenciosa. Frequente. E ainda subdiagnosticada.
Estima-se que uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva conviva com a condição. No Brasil, são cerca de 8 milhões de mulheres. No mundo, mais de 190 milhões, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mesmo com números tão expressivos, o diagnóstico costuma demorar. Em média, de sete a dez anos após o início dos sintomas. Um intervalo longo, que permite a progressão da doença e pode comprometer estruturas importantes do sistema reprodutivo.
A endometriose é caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Esse tecido pode atingir ovários, trompas, intestino, bexiga e outras estruturas da pelve. Trata-se de uma doença inflamatória crônica, que provoca dor, alterações funcionais e, em muitos casos, infertilidade.
Falar sobre endometriose é falar sobre qualidade de vida. É também falar sobre saúde reprodutiva, fertilidade e planejamento familiar. Informação encurta caminhos, reduz sofrimento e amplia possibilidades de tratamento.
Nem toda dor é normal
Durante décadas, a dor menstrual intensa foi naturalizada. Muitas mulheres cresceram ouvindo que cólica forte faz parte da vida. Mas dor incapacitante não é normal.
A cólica intensa é um dos sintomas mais conhecidos da endometriose. No entanto, a doença vai além disso. Muitos sinais são confundidos com desconfortos considerados comuns do ciclo menstrual.
O cansaço extremo é um deles. A fadiga persistente pode estar relacionada ao processo inflamatório contínuo que a endometriose provoca no organismo. Não se trata apenas de indisposição pontual, mas de um esgotamento recorrente, físico e mental.
O inchaço abdominal frequente também pode estar associado à doença. A sensação de barriga estufada, especialmente no período menstrual, muitas vezes é atribuída apenas a alterações digestivas.
Dor lombar que piora durante a menstruação merece atenção. Alterações intestinais cíclicas, como diarreia no período menstrual, dificuldade para evacuar ou excesso de gases, podem indicar comprometimento intestinal.
Em alguns casos, há dor ao urinar durante o ciclo menstrual, quando a bexiga é acometida. A dor na relação sexual é outro sintoma comum, embora muitas vezes silenciado por constrangimento ou desconhecimento.
Quando esses sinais são persistentes, progressivos ou interferem na rotina, é importante investigar a possibilidade de endometriose.
Quando investigar a endometriose?
O principal alerta é simples: quando a dor limita a vida.
Se a mulher precisa faltar ao trabalho, cancelar compromissos ou reorganizar a rotina todos os meses por causa da menstruação, algo precisa ser avaliado. O uso frequente de analgésicos ou anti-inflamatórios também não deve ser banalizado, especialmente quando já não oferecem alívio satisfatório.
A dificuldade para engravidar é outro ponto decisivo. Casais que tentam gestação por mais de 12 meses sem sucesso devem buscar investigação especializada. Em muitos casos, a infertilidade é o evento que leva ao diagnóstico definitivo da endometriose.
O histórico familiar também aumenta o risco. Ter mãe ou irmãs diagnosticadas exige acompanhamento mais atento e diálogo aberto com o ginecologista.
Segundo a Dra. Genevieve Coelho, Diretora Médica do IVI Salvador, a investigação precoce é determinante para o prognóstico. “Quanto mais cedo identificamos a endometriose, maiores são as chances de controlar sua progressão, preservar a fertilidade e melhorar significativamente a qualidade de vida da paciente”.
Endometriose e infertilidade: qual é a relação?
A relação entre endometriose e infertilidade é significativa. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia estima que entre 30% e 50% das mulheres com a doença possam apresentar dificuldade para engravidar.
Isso não significa que a gestação seja impossível. Significa que o acompanhamento deve ser individualizado.
A endometriose pode alterar a anatomia da pelve. Lesões e aderências modificam a posição dos órgãos reprodutivos, dificultando o encontro entre óvulo e espermatozoide.
As trompas podem ser comprometidas, prejudicando a captação e o transporte do óvulo até o útero.
Os ovários também podem ser afetados. Em alguns casos, surgem endometriomas, cistos ovarianos que podem impactar a reserva ovariana e reduzir o número de óvulos disponíveis ao longo do tempo.
Além disso, o ambiente inflamatório pélvico pode interferir na qualidade dos óvulos, na fertilização e na implantação do embrião. Trata-se de uma condição que afeta múltiplas etapas do processo reprodutivo.
Por isso, a avaliação da fertilidade deve fazer parte do acompanhamento de mulheres com endometriose, especialmente quando há desejo de engravidar.
Onde entra a reprodução assistida
Nem toda mulher com endometriose precisará de reprodução assistida. Mas, quando a infertilidade está presente, ela pode representar um caminho seguro e eficaz.
Em casos de comprometimento das trompas, aderências extensas ou redução significativa da reserva ovariana, técnicas como a Fertilização in Vitro (FIV) ajudam a contornar barreiras impostas pela doença.
Na Fertilização in Vitro, os ovários são estimulados, os óvulos são coletados e a fecundação ocorre em laboratório. O embrião formado é transferido diretamente para o útero, reduzindo a interferência de fatores anatômicos e inflamatórios que poderiam dificultar a gestação espontânea.
A reprodução assistida também pode ser indicada como estratégia de preservação da fertilidade. O congelamento de óvulos pode ser considerado em mulheres jovens com diagnóstico precoce e risco de progressão da doença. Essa decisão deve ser discutida de forma personalizada, levando em conta idade, reserva ovariana e planos reprodutivos.
A medicina reprodutiva oferece possibilidades concretas. O mais importante é não adiar a avaliação quando há desejo de maternidade.
Março Amarelo: conscientização que protege o futuro
O Março Amarelo é dedicado à conscientização sobre a endometriose. A campanha reforça uma mensagem clara: dor intensa não é normal e não deve ser ignorada.
O objetivo é ampliar informação, reduzir o tempo até o diagnóstico e estimular mulheres a buscarem avaliação especializada diante de sintomas persistentes. Quanto mais cedo a investigação acontece, maiores são as chances de controlar a doença e preservar a fertilidade.
Conscientizar é interromper anos de silêncio. É transformar dúvida em diagnóstico e substituir sofrimento solitário por cuidado estruturado.
Com diagnóstico adequado, acompanhamento individualizado e acesso à reprodução assistida, quando indicada, muitas mulheres com endometriose conseguem realizar seus projetos de maternidade. Informação gera autonomia. Ação precoce amplia possibilidades. E cuidado especializado devolve segurança para decidir o futuro reprodutivo com confiança e tranquilidade.
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