A fertilidade não depende apenas dos órgãos reprodutivos. O sistema endócrino como um todo desempenha papel fundamental nesse processo, e a tireoide está entre as principais glândulas que influenciam a função reprodutiva.
Pequenas alterações hormonais, muitas vezes silenciosas, podem afetar diretamente o funcionamento do ciclo menstrual, a ovulação e até mesmo o desenvolvimento saudável da gestação.
Por isso, compreender como os hormônios tireoidianos atuam no organismo torna-se essencial para quem está tentando engravidar, seja de forma natural ou por meio de tratamentos de reprodução assistida, como a Fertilização in Vitro (FIV).
A tireoide é uma glândula localizada na parte anterior do pescoço e tem como principal função regular o metabolismo por meio da produção dos hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina).
Esses hormônios influenciam praticamente todos os sistemas do corpo, incluindo o cardiovascular e o reprodutivo. Quando há desequilíbrio nessa produção, seja por excesso ou deficiência, diversas funções hormonais podem ser afetadas, incluindo aquelas diretamente ligadas à fertilidade.
Tireoide e fertilidade feminina
Os hormônios da tireoide atuam em conjunto com outros hormônios importantes para o ciclo reprodutivo feminino, como o estrogênio, a progesterona e o hormônio luteinizante (LH).
Esse equilíbrio é essencial para que a ovulação ocorra de forma regular e para que o endométrio esteja preparado para uma possível implantação do embrião.
Segundo a especialista em Ginecologia e Obstetrícia e médica do IVI Salvador, Andreia Garcia, quando há alterações nos níveis tireoidianos, o eixo hormonal que regula a ovulação pode sofrer interferências. “Isso pode resultar em ciclos menstruais irregulares, ausência de ovulação e dificuldades para engravidar. Além disso, mesmo quando a concepção ocorre, alterações hormonais podem impactar a manutenção da gestação, aumentando o risco de complicações”, explica.
Outro ponto importante é que a tireoide também influencia a produção da prolactina, hormônio que, quando elevado, pode inibir a ovulação. Dessa forma, alterações tireoidianas podem gerar um efeito em cadeia, comprometendo todo o processo reprodutivo.
Hipotireoidismo e fertilidade
O hipotireoidismo é caracterizado pela produção insuficiente de hormônios pela tireoide. Essa condição pode causar sintomas como cansaço excessivo, ganho de peso, queda de cabelo, pele seca e alterações menstruais.
No entanto, em muitos casos, os sinais são discretos, o que faz com que o diagnóstico seja tardio. Quando relacionado à fertilidade, o hipotireoidismo pode provocar ciclos irregulares, diminuição da frequência da ovulação e até mesmo anovulação (ausência de ovulação).
Isso ocorre porque a redução dos hormônios tireoidianos interfere diretamente na liberação dos hormônios responsáveis pela maturação dos folículos ovarianos.
Além disso, o hipotireoidismo pode aumentar os níveis de prolactina – hormônio responsável pela regulação do metabolismo tanto em homens como em mulheres – dificultando ainda mais a ovulação.
Outro impacto relevante é a alteração da fase lútea, período após a ovulação que é essencial para a implantação do embrião. Quando essa fase não ocorre de forma adequada, a gravidez pode não evoluir.
Mulheres com hipotireoidismo não tratado também podem apresentar maior risco de abortamento espontâneo, anemia na gestação, pré-eclâmpsia e parto prematuro.
Hipertireoidismo e gravidez
O hipertireoidismo ocorre quando a tireoide produz hormônios em excesso. Entre os sintomas mais comuns estão ansiedade, perda de peso, palpitações, insônia e sudorese excessiva.
Assim como o hipotireoidismo, essa condição também pode interferir na fertilidade. O excesso de hormônios tireoidianos pode provocar irregularidade menstrual, ciclos mais curtos e alterações na ovulação. Em alguns casos, pode haver redução da reserva ovariana funcional, dificultando a concepção.
Durante a gravidez, o hipertireoidismo não controlado pode trazer riscos tanto para a mãe quanto para o bebê. Entre as possíveis complicações estão parto prematuro, baixo peso ao nascer, hipertensão gestacional e até alterações no desenvolvimento fetal.
Por esse motivo, o diagnóstico precoce e o controle adequado são essenciais para garantir uma gestação segura.
Tireoide e fertilidade masculina
Embora a relação entre tireoide e fertilidade seja mais frequentemente associada às mulheres, os hormônios tireoidianos também desempenham papel importante na saúde reprodutiva masculina.
Alterações na função tireoidiana podem interferir na produção hormonal, especialmente na testosterona, além de impactar diretamente a espermatogênese, processo responsável pela formação dos espermatozoides.
Tanto o hipotireoidismo, bastante comum entre os homens, quanto o hipertireoidismo, podem provocar mudanças na concentração, na motilidade e na morfologia dos espermatozoides, fatores essenciais para a fertilização.
Além disso, disfunções na tireoide podem estar associados à diminuição da libido, disfunção erétil e alterações na qualidade seminal. Em muitos casos, esses efeitos são reversíveis com o tratamento adequado e o restabelecimento do equilíbrio hormonal.
Quando investigar a tireoide
A avaliação da função tireoidiana passa a ser recomendada em diversas situações, principalmente quando há tentativa de gravidez sem sucesso por mais de 12 meses, abortos de repetição, ciclos menstruais irregulares, histórico familiar de doenças da tireoide, diagnóstico de infertilidade sem causa aparente, planejamento de gravidez ou preparação para FIV.
Os exames geralmente incluem a dosagem do TSH, T4 livre e, em alguns casos, anticorpos tireoidianos. Esses testes são simples e podem fornecer informações importantes para o diagnóstico precoce.
Importância do controle da tireoide na gestação
Durante a gestação, a demanda por hormônios tireoidianos aumenta, especialmente no primeiro trimestre, quando o bebê ainda não possui tireoide funcional.
Nesse período, o organismo materno precisa fornecer hormônios suficientes para o desenvolvimento neurológico fetal. Quando há hipotireoidismo ou hipertireoidismo não controlado, essa oferta pode ser inadequada, aumentando o risco de complicações.
Por isso, mulheres com diagnóstico prévio devem manter acompanhamento regular e ajustes na medicação quando necessário. Mesmo mulheres sem histórico de alterações podem desenvolver disfunções durante a gestação, o que reforça a importância do pré-natal com avaliação hormonal quando indicado.
Na maioria dos casos, as alterações da tireoide têm tratamento simples e eficaz. O hipotireoidismo costuma ser tratado com reposição hormonal, enquanto o hipertireoidismo pode ser controlado com medicamentos específicos, sempre com acompanhamento médico.
Com os níveis hormonais adequados, muitas mulheres recuperam ciclos regulares e aumentam significativamente as chances de engravidar, seja naturalmente ou por meio da FIV. Além disso, o controle adequado reduz riscos durante a gestação.
A tireoide exerce papel fundamental na fertilidade feminina e no desenvolvimento saudável da gestação. “Por isso, investigar a função tireoidiana é uma etapa importante para mulheres que estão tentando engravidar ou planejam iniciar um tratamento de reprodução assistida. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, é possível restabelecer o equilíbrio hormonal e melhorar significativamente as chances de concepção e uma gravidez saudável”, conclui Dra. Andreia Garcia.
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